segunda-feira, 3 de maio de 2010

Por Que o Negro é Preto

Por que o negro tem a sola dos pés e a palma das mãos inteiramente brancas? É uma pergunta para iniciar uma historia de quando Cristo andou na Paraíba. Mestre Alípio, vaqueiro conceituado, administrador do Engenho Itaipu, foi logo dizendo o que sabia a respeito. Não se fez de rogado. E contou que era voz corrente, disso sabendo disso sabendo desde menino, que Jesus, "ao aparecer por aqui", costumava passear por todos os recantos numa como visita da inspeção.
Avistando-o a distância a mulher de um camponês ficou envergonhada de ser muito moça e já possuir 16 filhos e, então, meteu alguns deles escondidos num quarto. Esperou que chegasse a vez de ser interrogada, o que não tardou. Jesus, aproximou-se, perguntou-lhe se aqueles meninos que estavam no terreiro eram seus filhos, obtendo resposta afirmativa; e indagou ainda se estava satisfeita com a instalação, passadio e condições de vida. A casa lhe parecia bem grande, até confortável. E de repente se mostrou com a curiosidade de saber o que havia no tal quarto onde as crianças se achavam ocultas. Respondeu a jovem mãe, um tanto embaraçada:
- É um depósito de carvão.
Despedindo-se e abençoando a todos, Jesus teve estas palavras sentenciosas:
- Sendo carvão não mudará a cor.
Depois a mulher foi soltar o resto de sua ninhada e ficou surpreendida em ver que os filhos estavam pretos. Por causa de uma mentira se tornara mãe de oito filhos negros. Seu desgosto não podia ser senão enorme. Que fazer, então? Revoltada consigo mesma, não escondia a sua tristeza, até que um dos apóstolos de Jesus, o santo Pedro, recomendara, cheio de confiança:
- Leve os meninos ao Jordão e faça-os banhar nas suas águas que eles ficarão brancos.
Porém quando a camponesa chegou com a metade de seus filhos às margens do rio sagrado, inexplicavelmente este se achava quase seco, com um fiozinho de nada correndo, mal chegando para que as crianças pudessem molhar a sola dos pés e a palma das mãos. E como estivessem com sede, beberam gotas apenas para enganar o desejo, resultando de tudo isso ficarem brancas aquelas partes do corpo, inclusive a boca.
- A boca, Alípio? - interrogamos.
- Sim senhor - respondeu ele. E acrescentou:
- A água foi pouquinha, dando apenas para clarear, puxando mais para roxo.
É a explicação que se conhece com o fim de decifrar o mistério. Os escravos da Várzea costumavam contar essa historia nas suas reuniões domésticas das senzalas e também da Casa-Grande, não deixando de fazer as suas "variações de largo fôlego", entrando detalhes interessantes, enxertos de improvisação, traços de vivo pitoresco, mas o essencial está no que ficou relatado em conformidade com a tradição. E sem tirar e nem pôr.

(Ademar Vidal)

Um comentário:

  1. Esse conto foi bastante comentado lá na sala do 1° E. Muito bom, contudo bastante facil de entende-lo

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